Comunicação e interculturalidade na governança das águas no Brasil
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Resumo
A eficiência da própria gestão pública depende do compartilhamento de significados que favoreçam sinergias ao invés de embates, e engajamento ao invés de paralisia. Entre as várias áreas de política pública, a sustentabilidade ambiental, em particular, pode tornar-se ainda mais dependente de conceitos e práticas de comunicação intercultural que facilitem o relacionamento entre setores sociais com compreensões diferentes. Em países como o Brasil, nos quais a governança das águas inclui processos deliberativos abertos à participação da sociedade, tal relacionamento ocorre nos comitês de bacia hidrográfica, que se mostram como espaços interculturais. Neles, na negociação de interesses e finalidades entre agentes sociais diversos, ocorrem a formação e a disputa de visões acerca do uso e gerenciamento da água. Nossa pesquisa examinou as relações intersubjetivas construídas em um comitê de bacia hidrográfica de particular importância para o Estado de São Paulo, Brasil. Nosso objetivo foi investigar, com a metodologia de entrevista semiestruturada, de que modo os relacionamentos interculturais entre os agentes sociais em um comitê específico influenciaram sua capacidade de tomada de decisão. Foram aplicadas quinze entrevistas com membros dos três segmentos do comitê (funcionários do Estado, prefeitos e sociedade civil), e sua análise, por meio da técnica de estudo de caso, permitiu sugerir oportunidades de aperfeiçoamento do processo deliberativo nos comitês. Os resultados sugerem que as oportunidades de aperfeiçoamento da capacidade decisória dos comitês vêm inclusive do fortalecimento de sua autoridade prática por meio de estratégias de valorização e reconhecimento da interculturalidade entre seus integrantes
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